Le Cul du Tabou

"Tudo começou há algum tempo atrás na Ilha do Sol..." Era uma vez dois grandes amigos que resolveram, em pleno sol de Ipanema, criar um livro de contos. Ocorre que a cerveja era tanta que o nome do livro se esvaiu...Mas, graças à Nossa Senhora dos Bons Feriados, os amigos resolveram retomar a empreitada... Ainda desmemoriados, decidiram criar esse blog, com o objetivo de discorrer sobre temas polêmicos, histórias engraçadas e outras curiosidades...

Saturday, March 29, 2014

#DESARQUIVANDO


Meu avô era um homem misterioso. Um homem sério, de poucas brincadeiras, mas que soube me dar carinho através de sua presença, de sua companhia e de seus ensinamentos. Ao longo dos anos, muita coisa de sua face misteriosa foi sendo revelada, ainda em vida: além da nossa família, ele ainda tinha mais duas paralelas. E um monte de amantes. Uma dessas famílias tive a oportunidade de conhecer e conviver, pessoas que respeito muito, apesar de conviver pouco hoje em dia. Mas sua “segunda" esposa, que como a minha avó foi esposa a vida inteira e ficou ao seu lado até o dia de sua morte, foi uma pessoa com quem convivi, de quem gostei e achei até a chamar de “vó”, para ira de alguns familiares. 


Por mais chocante que fosse essa revelação da secreta vida conjugal do meu avô, essa ainda não era sua parte mais misteriosa. Meu avô tinha uma profunda relação com a espiritualidade. Não falava disso com ninguém, não era panfletário sobre suas crenças e o máximo que tive de contato com sua fé era quando rezávamos todas as noites antes de dormir, enquanto ele morou comigo. Sobre a cabeceira da cama, alguns livros espíritas, um evangelho e a foto da minha avó Izolina. Sim, eu acredito que ele a amou, tanto quanto ele amou sua outra esposa, do mesmo jeito que ele amou tantas outras mulheres, algumas que até cheguei a conhecer. 


Mas ele guardava um outro grande segredo: numa época de sua vida em que havia trabalhado como operário numa fábrica, ele se envolveu com política. Chegou a ser preso e ficou um tempo desaparecido da família, porque havia sido acusado de “roubo”, coisa que era quase impossível de acreditar. Na cadeia, foi torturado, passou fome, mas sobreviveu. Nunca falava sobre isso, apenas manifestava, vez ou outra, o ódio que tinha da polícia, pela violência à qual havia sido submetido. 


Felizmente, meu avô voltou para casa. Inteiro, sem grandes sequelas físicas ou psíquicas. Desempregado e com a “ficha suja”, chegou a trabalhar novamente como engraxate pelas ruas da cidade para sustentar suas famílias. E assim o fez. O que será que ele fez para conseguir sobreviver? Assumiu a culpa do tal “crime”? Entregou amigos de uma luta política? Ninguém jamais saberá. Com seu corpo, foram enterradas tais memórias. O fato é que ele pode voltar para casa, viu filhos, netos e bisnetos nascerem. 


Quando lembro dessa história, paro pra pensar em quantas foram as pessoas que desapareceram nos porões da ditadura militar no Brasil. Quantos foram os pais e mães brasileiros que, como meu avô, foram presos, torturados e, muito pior que isso, nunca voltaram para casa? Quantos tiveram que fugir com o intuito de garantir a vida, deixando para trás família, filhos, pertences? Quantos foram torturados e submetidos a procedimentos médicos, maus tratos, choques e outros tipos de tortura pela simples razão de desejarem lutar contra a opressão e possuírem pontos de vista diferentes? 


Infelizmente, mais do que todas as pessoas que passaram por isso, existe um número incontável de pessoas que se mantém num limbo de ignorância e alienação sobre tais assuntos. Pessoas imersas num mundo de fantasias e mitos sobre os “comunistas”, os “vagabundos rebeldes” que “ameaçaram a paz e a ordem do país”. Apesar da incrível história do meu avô, muitos de minha família nem fazem idéia do que se passou com ele e vivem numa total alienação, alienação essa que vivi e compartilhei por anos. 


Pela memória do meu avô, pela memória de tanta gente que sofreu, que foi torturada, que morreu por um ideal, pelas músicas proibidas, pelos livros queimados ou recolhidos e, sobretudo, porque isso pode acontecer de novo, é preciso que essas histórias sejam contadas, reveladas, trazidas à tona. E é por esse motivo que apoio integralmente a abertura dos arquivos da ditadura civil-militar, a revisão da Lei da Anisitia e a punição dos torturadores, bem como a mudança de nomes de logradouros públicos que ainda ostentam e exaltam no coletivo a presença de ditadores e torturadores. 
Não apenas pelo resgate histórico e pelo respeito às vítimas do passado, mas pela importância de conhecermos mais e mais a história que governantes esconderam de nós para a manutenção da alienação das massas. 

Para saber mais: http://desarquivandobr.wordpress.com 




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